Sesi-SP Editora anuncia corte de linhas editoriais

Editora suspendeu a publicação de livros de interesse geral e HQs, áreas que venceram 11 prêmios Jabuti desde 2014, para se dedicar apenas a livros didáticos para alunos das escolas da entidade

Numa decisão que surpreendeu o mercado, a Sesi-SP Editora optou por uma mudança radical em suas publicações. A editora desenvolveu na última década quatro linhas de trabalho: livros didáticos e paradidáticos, obras de literatura geral, histórias em quadrinhos e livros institucionais. Com as mudanças anunciadas, apenas a publicação de livros didáticos será mantida, e voltada exclusivamente para as obras utilizadas nas escolas da entidade.

Não deixa de ser um trabalho de grande volume. As demandas do Sesi-SP e do Senai-SP em livros didáticos e paradidáticos respondem por 91% da produção da editora. O Sesi paulista mantém 142 escolas, que têm matriculados 97 mil alunos, da pré-escola até o Ensino Médio. Somados a esse número estão os alunos dos cursos de curta e longa duração que o Senai oferece, que representam aproximadamente um milhão de matrículas a cada ano.

O que surpreende na decisão é que no restante no trabalho da editora, que não chegava a 10% do volume total das publicações, as obras de interesse geral, principalmente em HQ e infantojuvenil, renderam mais de 50 prêmios desde 2014. Apenas no Jabuti, principal prêmio concedido à literatura brasileira, são 11 vencedores. A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil concedeu 12 prêmios para as obras da Sesi-SP no mesmo período.

Como o Sesi não é uma entidade com fins lucrativos, internamente a decisão foi recebida com surpresa. Faz parte de uma série de reformulações comandadas por Wilson Risolia, ex-secretário estadual da Educação do Rio de Janeiro entre 2010 e 2014, nas gestões de Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão. Risolia começou a trabalhar com a nova diretoria da Fiesp no começo do ano, e a ele cabe as ações ligadas à Educação. Ele questionou em reuniões do conselho da entidade a gestão da editora, falando de estoque muito grande de obras, o que caracterizaria encalhes, mas sem divulgar números.

André Sturm, ex-secretário municipal da Cultura de São Paulo e integrante do conselho, pediu em duas reuniões seguidas mais informações que pudessem embasar a ideia. “A decisão foi tomada e ninguém até agora mostrou qual era a real situação desses estoques. Pedi informações porque me interessei em ajudar a dar um rumo para essas obras em estoque, mas não fui atendido”, disse Sturm ao PublishNews. “Minhas tentativas de contato com Wilson Risolia não foram respondidas.”

A Sesi-SP Editora divulgou nota na qual afirma que os livros estocados “serão utilizados na atualização das bibliotecas das entidades, vendas e doações pertinentes ao trabalho social da entidade.” Mas não esclarece o que vai acontecer com os autores sob contrato, com obras já lançadas ou outras que estavam programadas. Alguns autores já manifestam a intenção de pedir distratos.

Sturm diz que o Sesi cresceu muito, “é uma potência”, e poderia tratar mudanças com menos atropelos e transparência. E tem sugestões a dar. “Se vão atender às escolas, poderiam publicar livros de literatura para os alunos e depois colocá-los à venda para os interessados, por um preço mais baixo. Foi tudo feito sem informações, uma verdadeira caixa preta. Queria colocar o assunto em pauta e fui escorraçado.”

Ele acredita que uma parte de livros estocados podem ser as chamadas publicações institucionais, como, por exemplo, catálogos de exposições ou programas de peças de teatro exibidas nas unidades do Sesi. Um material que tem sua função, mas certamente nenhum apelo comercial. “Se houve erro em publicar muitos exemplares desses, é um erro a ser corrigido. Talvez existam outros erros, mas não seriam motivos para parar de editar livros premiados e que vendem bem. Eu apurei que em 2019 a editora teve lucro na casa de R$ 2,5 milhões”, conta Sturm. “A decisão é absurda!”

Quanto à equipe da editora, nas últimas semanas foram registradas algumas demissões e o redistribuição de profissionais dentro da entidade.

Fonte: PublishNews